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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Gibis e bolas de gude

 Dos tempos de gibis e bolinhas de gude.


Quem tiver hoje entre 60, 70 ou 80 anos certamente vai lembrar daquelas tardes de domingo, quando a diversão era ir à matinê no cinema local.

E São Gabriel, onde me criei, existiam dois cinemas: o Harmonia e o Vitória. Este era o melhor, na concepção da piazada, até pela localização na cidade: era bem no centro.

Lá eu aprendi o que é, na verdade, um mercado de trocas. Não sei se ainda lembram de como era na frente do cinema aos domingos? As meninas, muito bonitinhas, com as suas melhores roupas, formavam grupinhos para que os meninos pudessem ter a oportunidade de escolha. Olhares furtivos, recadinhos enviados em bilhetinhos jogados no chão quando passavam ou entregues por algum moleque que ficava por ali para ganhar uma "gorja"... Enfim, não havia celular.

Mas o que me chamava a atenção eram alguns meninos que iam para a frente do cinema, mas NUNCA entravam, pois chegavam com braçadas de GIBIS para trocar com os outros. Alguns, além dos gibis, ainda levavam sacos de bulitas (bolas de gude), também para trocar e jogar ali mesmo.

Não raro era estar ali alinhavando um flerte e, de repente, dois ou três meninos andarem por baixo dos pés e das saias das meninas, à cata de alguma bolinha que escapou do jogo. Eu achava aquilo o máximo!

Bom mesmo era quando eles iam "às devas" (tirar as teimas). Era uma barulheira, e todos ficavam muito atentos para não serem sacaneados.

E assim, eu ouvia a gurizada falar:

— Troco este do Patinhas por um do Batman.

— Não! O Batman vale muito mais!

— Patinhas é para criança!

— Dois por um, então?

— Não! Os teus já são velhos, e o meu está estalando de novo.

E o mercado de trocas seguia até a saída da sessão.

Os maiores, já na adolescência, se arranjavam com alguma menininha e, se tivessem dinheiro, entravam na fila e compravam, além dos ingressos, algumas guloseimas para agradar. 

Os menores seguiam na jogatina de bulitas e na troca das revistinhas.

E eu? Bem, eu tinha uns 13 ou 14 anos e tinha um namoradinho, que veio a ser o meu marido e é até hoje, cincoenta e tantos anos depois.

E tenho uma passagem interessante nessa história das matinês...

Foi quando, numa dessas tardes de domingo, ele comprou um saco de balas e, quando chegou às cadeiras, já havia começado a sessão e as luzes já estavam desligadas.

Mas vocês não se lembram? Havia os "lanterninhas" que, literalmente, com uma lanterna, iam focando no meio das fileiras até achar um espaço vazio. Imagino o trabalho que ele teve para me encontrar na fileira certa. O lugar eu havia marcado, e ele chegou me dando aquele presente com prazer.

Peguei, agradeci e segui olhando meu filme e de olho em outro menino, pois de balas eu andava cheia, já que meu pai era dono de um bar.

Fui chata, não é?

Passados uns anos, ele me cobrou o porquê de eu não ter aberto aquele saco de doces, pois ele estava doido para comer!

Dei muitas risadas, pois eu NEM imaginei que ele pudesse querer balas naquela altura do campeonato e, muito menos, que iria me cobrar isso tantos anos depois.

Lamentei a minha desatenção e disse que eu não suportava balas, muito menos aquelas de café, marca Soberana.

Coitado! Investiu o dinheiro da semana, conquistado como ajudante de alfaiate, nos doces que queria e nem comeu umazinha.

Mas eram para mim, não?

A partir de então, na minha casa, sempre tem vidros de balas de café à disposição por todo lado.

NUNCA mais ele falou no assunto, mas hoje, limpando um balcão, vi as tais balas de café e relembrei mais esta passagem da minha vida.


Maria Cezar-POA-RS 


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