Terra que me criou
Me criei em São Gabriel
A terra dos marechais
Perto da estação de trem
Que não esqueço jamais.
Meu pai tinha um bolicho
Era o bar do " serraninho"
Eu ajudava no serviço
Não dava conta sozinho.
O povo vinha no trem
E por ali acampavam
Por ali tomavam o café
Alguns até almoçavam.
Tempo bom que já passou
deixando só a saudade
da terra que me criou, por
ela tenho lealdade.
E tinha os caminhoneiros
Que na fila aguardavam
Pois haviam dois engenhos
Onde eles descarregavam.
Vinda do Azevedo Sodré
Tinha a Kombi de linha
Chegava todas manhãs
E sempre vinha cheinha.
O dono daquela kombi
Tinha a alcunha de Miguel
Sucesso com a mulherada
Parecia até um Gardel.
Era feio o desgraçado
Parecendo um mistério
Eu tinha desconfiança
Ser parente do Eleutério.
Ali no nosso bolicho
Era bom não tinha luxo
Meu pai vendia de tudo
Até perfume "amor gaúcho "
Era costume dos peões
Que chegavam lá de fora
Comprarem o tal perfume
E também uma "glostora "
Em certa hora do dia
Não tinha onde pisar
De tantas sacolas e bolsas
Que ficavam pra guardar.
O bolicho possuía
Até mesmo um lugar
Pra todo aquele povo
Que queria se trocar.
Saíam para as consultas
Muitos só para comprar
Pra médicos e pra dentistas
E até mesmo pra assuntar.
As moças trocavam roupas
Faziam banho de assento
Caprichavam na maquiagem
Parecia um casamento.
A toalete era disputada
Pelos peões e as prendas
Mas primeiro iam elas
Como a norma recomenda.
O cheiro do amor gaúcho
No ambiente exalava
Misturado com outras coisas
Muitas vezes me enjoava.
Foi assim que me criei
Meus dias bem trabalhados
Mas eu nunca reclamei
Foi meu melhor aprendizado.
Maria Cezar POA- RS

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