Engraçado como a memória tem cheiro. Basta fechar os olhos e sinto o aroma da terra molhada e daquelas manhãs de primavera, onde o ar parecia mais leve, quase transparente. Naquele tempo, a nossa maior riqueza não estava guardada em bancos, mas pendurada nos galhos. Não havia nada que se comparasse à alegria de colher a fruta direto no pé, sentindo o caldo doce escorrer pelo queixo — era o verdadeiro sabor da liberdade.
A casa vivia cheia. O barulho dos irmãos correndo, as vozes dos nossos pais costurando o cotidiano com conselhos e cuidados que, na época, achávamos excessivos, mas que hoje são o que mais nos faz falta. Era um porto seguro, um lugar onde o mundo lá fora não ousava nos tocar.
E no meio dessa paz, surgiu aquele primeiro encanto. O primeiro namorado, o frio na barriga que parecia borboletas presas no peito. Não precisávamos de muito: um olhar mais demorado na praça ou o toque tímido das mãos já era o suficiente para iluminar a semana inteira. Havia uma pureza absoluta naquele querer, uma delicadeza que o tempo, com sua pressa, às vezes tenta nos roubar.
Muitas vezes fugíamos para as cachoeiras de águas cristalinas. Mergulhar ali era como um ritual de batismo na juventude. A água era gelada, mas a alma saía quente, lavada de qualquer preocupação.
Mas, como as águas dessas cachoeiras, a vida não para. As mudanças vieram. O destino nos levou para caminhos diferentes, cidades maiores, outras responsabilidades. O quintal ficou pequeno, os pais partiram, os irmãos criaram suas próprias raízes.
No entanto, por mais que a vida mude e o espelho nos mostre o passar dos anos, essa essência permanece. Ainda somos feitos daquela água límpida, do gosto da fruta colhida e do calor daquele primeiro amor. A vida nos transforma, é verdade, mas o que foi vivido com verdade,vira casa dentro da gente.
Maria Cezar-POA-RS

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