No reino suspenso entre o muro e a roseira,
Erguiam-se fortes de lama e de fé.
Meninos regiam a tropa inteira,
Com soldados de chumbo postos de pé.
Havia trincheiras nos vãos do jardim,
Pontes de graveto sobre o rio de chão;
Batalhas travadas sem medo ou fim,
Pelo puro triunfo da imaginação.
Um grito de guerra, um plano traçado,
O herói de plástico, o joelho ralado.
Enquanto o canhão de brinquedo rugia,
Na varanda ao lado, o tempo era mudo.
Bonecas de louça, em fina heresia,
Guardavam segredos de um laço de veludo.
Meninas teciam, em rendas e chás,
O sonho do baile, o brilho da luz;
O primeiro beijo que o vento traz,
E o amor que o peito, em prece, conduz.
Eram mundos distintos sob o mesmo sol:
Um feito de pólvora, outro de seda;
Um vago desejo no azul do lençol,
Outro a conquista de uma alameda.
Maria Cezar-POA-RS
Foto retirada da Internet
As Marcas do Ontem
Essas marcas ficaram.
Não no chão, mas na alma.
A coragem do forte virou prontidão;
O sonho do baile, uma busca de calma;
As batalhas de outrora, a própria vida em mão.
Hoje o silêncio é digital e frio,
Onde o brilho da tela substituiu o olhar.
O romantismo parece um navio vazio,
Navegando em pixels, sem porto ou lugar.
As mãos já não sentem o barro ou a louça,
A pressa engoliu o que o tempo tecia;
E a voz da infância, agora mais rouca,
Se perde no eco da tecnologia.
Mas quem viveu carrega o tesouro guardado,
O cheiro da terra e o som do vestido.
Pois nada apaga o que foi registrado
No cofre do peito, no tempo vivido.
São belas lembranças, eternas e puras,
Que a máquina alguma jamais poderá...
Pois quem teve um forte e viveu aventuras,
Sabe que o ontem pra sempre estará.

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