O tempo não é mais um rio longo,
É um gotejar constante sobre o que restou de nós.
Olhamos para as mãos
e não reconhecemos a lentidão que nelas habita
Há um abismo entre o querer e o conseguir,
Uma fenda que cresce a cada pôr do sol.
A consciência é um farol cruel
Ela ilumina as nossas juntas gastas
E mostra que o mundo lá fora, fala uma língua
da qual perdemos o sotaque.
Tudo corre, vibra e se renova,
enquanto nós,
anacronismos de carne e osso,
viramos notas de rodapé em páginas que ninguém mais lê.
Essa percepção de ser "ontem" em pleno "agora"
é o que empurra a porta da saída.
Não é apenas o corpo que falha,
é a alma que, ao se ver ultrapassada,
começa a arrumar as malas em silêncio.
Morremos um pouco mais depressa
no exato instante em que entendemos
que o futuro já não precisa da nossa presença.

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