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quinta-feira, 19 de março de 2026

O silêncio da tapera


​Onde o vento hoje assovia entre frestas e cansaço,

Ergue-se a velha tapera, um esqueleto que hoje, ocupa aquele espaço.

As paredes, despidas de cal, guardam o eco de um riso,

De um tempo em que aquele chão era o próprio paraíso.

​Lá no fundo do quintal, o poço jaz esquecido,

Com a corda apodrecida e o balde já encardido.

Espelho d'água que outrora saciou a sede e a lida,

Hoje é apenas um túmulo de uma era interrompida.

Quanta frescura brotou daquela boca de pedra,

Enquanto o mato, lá fora, pacientemente tudo veda.

Ali ​houve um tempo de vida pulsante, muitos bichos no cercado,

Do galo anunciando o dia e do gado no banhado.

A horta era viçosa, de couve e manjericão,

E a terra, sempre generosa, entregava o pão na mão.

​Em cada final de tarde, o céu se tingia de um fogo manso,

E a casa se iluminava no momento do descanso.

​O cheiro do café passado, 

no pano do coador;

​O pão saindo do forno, era feito com amor.

Aquele  que ali viveu, hoje olha e aperta o peito 

Pois cada tábua caída foi um sonho muito bem feito.

Lembra do Sol ao amanhecer, tingindo o campo de esperança,

Quando o verde era mais verde aos olhos de uma criança.

​A tapera não é ruína, é um livro que o tempo abriu,

É o rastro de quem amou, de quem lutou e partiu.

Ficou a saudade acesa, como brasa na cinza fria,

Do que um dia foi lar, calor e pura alegria.


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