No rastro da poeira que o vento levanta,
Ficou minha infância, plantada no chão.
A terra vermelha, que o pé descalço canta,
Hoje é lembrança que aperta o coração.
Saí com a mala estufada de planos,
Buscando o melhor que o mundo prometia,
Mas não vi que o tempo, no passar dos anos,
Cobraria o preço da minha alegria.
A troca foi feita no escuro da lida:
Vendi o horizonte por um corredor.
Troquei o perfume da mata florida
Pelo cheiro de fumaça e o ruído do motor.
Onde havia o verde, hoje reina o cinza,
Onde corria o rio, o asfalto é que domina.
A alma, que era fogo, agora é só cinza,
Sufocada no aperto dessa rotina.
Disseram que a cidade era luz e tesouro,
Que o campo era pouco para quem quer crescer.
Mas de que vale o brilho desse falso ouro,
Se não tenho o céu para me ver amanhecer?
Ergui muros altos pra me proteger,
Mas acabei presa no que eu mesma construí.
Olho pro cimento e tento entender:
Como vim buscar vida... e tanto eu perdi?
Sinto saudade dos bichos, da horta e do pasto,
Do silêncio que ensina a gente a escutar.
Aqui tudo é pressa, tudo é muito gasto,
Até o tempo esqueceu de descansar.
Sou uma filha da terra em solo estranho,
Um bicho do mato tentando ser concreto.
Pois descobri, no meio desse rebanho:
O mundo é grande, mas era lá, que eu tinha o meu teto.
Maria Cezar-POA-RS

Nenhum comentário:
Postar um comentário