O pé esmagava o barro, e a vida era largura,
Ficou um rastro de infância, guardado na terra pura.
Eu tinha o Sol como teto, e o vento por direção,
Correndo onde o campo se perde, na linha da imensidão.
A liberdade tinha cheiro, de capim e de poeira,
De um mergulho gelado, no colo da cachoeira,
Onde a água lavava o medo, e o tempo não tinha hora,
Tudo isso o asfalto frio, num susto, levou embora.
Agora o céu é um recorte, moldura de apartamento,
Só um quadrado de cinza, que barra o sopro do vento.
Não há trilha, não há mato, não há mais a fruta no pé,
A cidade é um silêncio barulhento, mas que não diz o que é.
As paredes são guardiãs, de um espaço que me aperta,
Onde a porta está fechada, mas a alma continua aberta,
Buscando o verde perdido, entre prédios e portões,
Abafando o grito do mato, sob as ordens de guardiões.
Mas o silêncio maior, mora no rastro do caminho,
Lá onde o cão fiel, agora late sozinho.
Deixei meu cachorro no pátio, o olhar pedindo pra eu ficar,
O rabo abanando a saudade, que eu não soube carregar.
Ficou o latido no vácuo, a corrida no descampado,
Enquanto eu sigo pra cidade, num carro todo fechado.
Trocaram meu mundo infinito, por um teto e uma calçada,
E levaram de mim a floresta, sem nem deixarem mais nada.

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