Há um tempo em que a vida
cabe inteira numa tarde,
numa boneca sem um braço,
num carrinho de madeira,
numa poça d’água refletindo nuvens,
que a criança acredita poder tocar.
Os olhos pequenos descobrem o mundo
como quem abre um presente divino.
Tudo é encanto.
Tudo é eterno.
E o medo maior
é apenas a noite apagar as brincadeiras.
Mãe doce abrigo contra o frio dos dias.
Mãos cansadas de afagos,
colo com cheiro de pão e esperança,
voz baixa embalando sonhos
mesmo quando o coração dela
já dorme ferido de preocupações.
Mãe é chuva mansa sobre a febre,
é silêncio que entende,
é lágrima escondida no canto da pia
para que os filhos aprendam apenas a sorrir.
O tempo não pára
E a menina cresce inquieta,
carregando tempestades nos olhos.
Já não quer os vestidos da infância,
nem os conselhos guardados nas gavetas.
Há perguntas demais no peito,
há uma pressa desconhecida ardendo nas veias.
Ela se olha no espelho
como quem procura alguém
que ainda não nasceu por completo.
O mundo a chama.
O coração tropeça.
E cada sonho parece grande demais
para caber dentro da própria casa.
Depois surge o jovem,
com os primeiros rubores da juventude,
tentando esconder o tremor das mãos
ao tocar outra mão pela primeira vez.
Ele acredita que o amor
é infinito e urgente.
Escreve nomes no vento,
faz promessas ao luar,
e pensa que o tempo
jamais terá coragem de envelhecê-lo.
Mas a vida essa artesã de despedidas
vai moldando os dias
com perdas silenciosas.
Maria Cezar-POA-RS
Chega a fase adulta.
Os sonhos aprendem a pagar contas.
Os olhos perdem um pouco do brilho
entre relógios, filas e responsabilidades.
Alguns amores resistem
Outros se tornam retratos guardados
em caixas que ninguém mais abre.
Há filhos crescendo,
há ausências na mesa,
há cansaços que não encontram repouso.
E sem perceber,
o homem e a mulher que juravam viver intensamente
começam apenas a sobreviver.
Maria Cezar-POA-RS
Então vêm os idosos.
Dois rostos marcados pelo tempo,
sentados diante de uma janela
onde o sol já não entra com a mesma força.
Dentro deles ainda moram paixões,
desejos não vividos,
abraços adiados,
beijos que o medo impediu.
A velhice é um lugar estranho:
o corpo desacelera
enquanto a memória corre.
Eles lembram do que não disseram,
das viagens nunca feitas,
dos amores deixados partir
por orgulho ou silêncio.
E há uma tristeza funda
em perceber que a vida termina
mesmo quando o coração
ainda queria recomeçar.
Porque ninguém completa todos os ciclos.
Sempre fica uma música interrompida,
uma carta jamais entregue,
um sonho esperando coragem.
Talvez seja isso viver:
carregar eternamente
alguma falta dentro da alma.
E quando chega o fim,
a existência inteira passa diante dos olhos
como um campo ao entardecer bonito, vasto…
e impossível de percorrer outra vez.
Então a morte se aproxima devagar,
não como castigo,
mas como quem apaga a última luz da casa.
E o velho coração compreende, enfim,
que a vida nunca foi feita
para ser completa.
Foi feita apenas
para ser sentida.
Maria Cezar -POA-RS

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