Há um brilho que nasce, manso e profundo,
no olho de quem dispensa cronômetro.
É quando a pupila, cansada do mundo,
encontra no verde, mistério e fenômeno.
Não há pressa no passo, nem uso de agenda,
Apenas o ritmo do bicho e da flor.
A vida se mostra, sem véu ou legenda,
Em folhas e pétalas, em puro vigor.
A alma se expande no silêncio do prado,
Onde o tempo é medido por sombras no chão.
O afeto do bicho que chega ao seu lado,
Que năo pede nada, além de atenção.
Mergulhar as mãos na terra que espera,
Sentir o pulsar de uma vida que brota;
Plantar a promessa de uma primavera
e ver que o destino jamais erra a rota.
No espelho o traço sutil se faz memória,
Quando o corpo cede ao peso de outros dias,
Cansado de ensaiar vãs alegrias,
Enquanto o tempo encerra
a nossa história.
A mente entende a queda e a trajetória,
Sentindo as mãos mais lentas e vazias;
As pernas, antes firmes e arredias,
Já não buscam metas, nem esperam vitória.
Pois quando a alma nota a própria lida,
E vê que o mundo avança noutro passo,
Apressa-se o adeus e a despedida.
Fazendo um rascunho, deixando o compasso.
Colher o sustento que o sol lapidou,
o fruto que guarda o sabor do cuidado.
É o ciclo perfeito que o céu desenhou:
ser parte do todo, ser solo sagrado.
Nesse canto livre de pressa e de medo,
o homem e a planta conversam no olhar.
A vida revela o seu maior segredo
Viver é o simples ato de cultivar.
Maria Cezar-POA-RS

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