Aquele tempo ficou guardado em um porta-retratos na memória, onde o sol das manhãs entrava sem pedir licença pela janela da fazenda. A essência da infância é um cheiro de café passado e terra molhada, um eco de risadas que o vento ainda insiste em soprar nos meus ouvidos.
Ao redor da mesa grande, o mundo parecia completo. Éramos muitos, mas o espaço nunca faltava, pois o amor se multiplicava entre os irmãos. Cada desjejum era um rito de união, sob o olhar vigilante e doce de uma mãe que era o pilar da casa, costurando com fios de dedicação o destino de cada um de nós.
E o que dizer das mãos de fada da vovó? Naquela cozinha de fogão a lenha, a magia acontecia. O aroma dos quitutes atravessava o quintal, chamando os amigos que hoje são apenas nomes gravados na saudade. Eram sabores que alimentavam a alma, segredos de temperos que nenhuma cidade jamais conseguiu replicar.
Havia uma liberdade sem grades, um horizonte que não terminava em muros. Os pés descalços conheciam cada trilha, e o tempo não era medido pelo relógio, mas pelo movimento das sombras nas árvores.
Hoje, os pés pisam o asfalto frio da selva de pedra. O céu é um recorte apertado entre prédios cinzentos e o silêncio do campo foi trocado pelo ruído incessante dos motores. A liberdade agora é uma lembrança guardada no peito, uma saudade doída de quando a vida era vasta, a família estava perto e a felicidade morava nas coisas mais simples do mundo.
Maria Cezar-POA-RS

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