No chão de terra, o império se erguia,
Entre gravetos e pedras de amolar,
O menino, em sua farda de fantasia,
Fazia o mundo inteiro, em um palmo de lugar.
Construía pontes sobre rios de poeira,
Onde soldados de chumbo, guardavam o dever,
Mas no fundo, daquela guerra passageira,
Havia apenas a urgência de viver.
Do outro lado do muro, em silêncio e luz,
A menina tecia o amanhã com as mãos,
Sua boneca era o afeto que a conduz,
Ao sonho de um lar, de quintais e irmãos.
Ela era a leveza que o soldado admirava,
O repouso doce após a imaginária batalha,
Enquanto o tempo, em seu relógio, tramava
Roupar-nos com a vida, que nunca falha.
A Nostalgia e o Peso do Chão
Ah, que doce o gosto dessa lembrança,
Quando a cor era apenas o lápis no papel,
E a única pressa era a da esperança,
De ver o sol pintando o azul do céu.
Mas o tempo cresce e o olhar se envenena,
O mundo impõe muros que a criança não viu,
A pureza se torna uma frase pequena,
Diante do ódio que o peito feriu.
Vieram os pesos, as grades, os "nãos",
O preconceito que marca o rosto e a cor,
A idade que julga os sonhos vãos,
E tenta apagar, da memória o valor.
Esquecem que o sangue, na luta ou no abraço,
Não escolhe matiz para o coração pulsar,
E que o soldado e a menina, no mesmo espaço,
Só queriam um mundo, onde pudessem amar
Maria Cezar POA-RS

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