"Aqui só estamos de visita, de passagem.Viemos observar, aprender, crescer,amar e voltar pra casa.

Minha foto
Um ser eternamente em busca do lugar ideal, do momento certo e da oportunidade perfeita...

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Silêncio dos invisíveis


No silêncio profundo desta madrugada gelada, em pleno mês de agosto, chove. Um galo canta desajeitado; ainda é um amador.

Um cão late sem forças, talvez com frio. Um veículo passa, fazendo uma barulheira rudimentar com suas latas em desalinho.

Um gato romântico ainda insiste em um namoro que já não deu certo.

A carrocinha do catador de papéis desce a rua, e ele cantarola.

Cantarola? A esta hora, em uma manhã gelada e chuvosa?

Sim, cantarola. Afinal, quem canta seus males espanta, como já dizia a vó Marvina.

Ouve-se o som de pisadas firmes, seguido por um chorinho teimoso. É uma mãe levando o filho para a creche, pois precisa ir trabalhar.

Mais uma brasileira que deveria ser chamada de heroína, mas não é.

A mulher de saltos, de todas as manhãs, desce a avenida sem medo. O som de seus passos se propaga entre os prédios, que parecem observá-la.

Então, ela desaparece no final da rua, esmagando os próprios problemas a cada pisada.

O sono, provavelmente, acompanha toda essa gente, mas eles não podem dormir.

A vida os leva para a rua, para o labor. Catando latinhas? Trabalhando na padaria da esquina? Na creche do final da rua? Saindo do bordel do outro bairro?

Não sei.

A vida começa muito cedo para muitos. Para outros, nem chega a começar, pois estão reféns do próprio destino, aprisionados em camas de hospitais, presídios, vícios... enfim, prisões.

Ouço a moto do entregador de jornais que, mesmo com tanta tecnologia, ainda leva notícias impressas em folhas de papel.

Coloca a própria vida em risco para entregar informações com cheiro de tinta.

Os jornais são lançados por cima de muros, grades e portões, envoltos em sacos plásticos.

Muitos acabam destroçados pela boca do cão da residência.

É a madrugada indo embora, dando espaço para mais um dia que começa sem mudanças para tantos.

É a vida que segue...

Ou, para alguns, nem segue.

Nenhum comentário:

Postar um comentário