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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O primeiro amor


Havia luz nos olhos da menina,

um sol ingênuo em cada amanhecer

e a vida, ainda breve e pequenina,

mal conhecia as dores do crescer.


Guardava sonhos feitos de cantiga, muitos segredos

entre páginas de flor,

até que o peito, em súbita vertigem,

aprendeu o silêncio,do primeiro amor.


Não veio em príncipes de antigos contos,

nem em promessas feitas ao luar,

veio na voz serena de um professor,

ou no amigo do irmão a lhe olhar.


Era um amor sem rumo e sem coragem,

desses que nascem só pra florescer

na parte mais secreta da paisagem

onde a infância começa a se perder.


A moça o via entrando pela sala,

com livros, passos lentos, distração,

e o coração, sem nunca compreender,

fazia festa transbordando emoção.


Qualquer palavra simples já bastava

pra incendiar o mundo ao redor,

um gesto breve, um riso, e já sonhava

com luas claras sobre um lindo corredor.


E havia dor nesse querer tão puro,

porque o destino gosta de afastar

aquilo que se guarda, no lugar mais profundo

na ânsia impossível de alcançar.


Talvez jamais soubesse do segredo

que ela escondia atrás da timidez;

mas foi amor — desses eternos medos

que vivem para além da lucidez.


Depois a vida abriu diversas portas,

vieram filhos, outros braços, cais,

o tempo pôs distância sobre tudo,

mudou cidades, nomes e sinais.


Porém existem sentimentos quietos

que a própria vida não desfaz depois,

ficam dormindo em quartos da memória,

como retratos esquecidos por nós.


E um dia, ao ouvir certa canção antiga,

ou perceber perfume igual no ar,

desperta a jovem que existiu um dia

e volta, em silêncio, a se apaixonar.


Porque o primeiro amor nunca termina,

mesmo que o mundo obrigue a renunciar;

ele se eterniza dentro da menina,

que toda mulher leva em seu olhar.


Maria Cezar-POA-RS 

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