Havia luz nos olhos da menina,
um sol ingênuo em cada amanhecer
e a vida, ainda breve e pequenina,
mal conhecia as dores do crescer.
Guardava sonhos feitos de cantiga, muitos segredos
entre páginas de flor,
até que o peito, em súbita vertigem,
aprendeu o silêncio,do primeiro amor.
Não veio em príncipes de antigos contos,
nem em promessas feitas ao luar,
veio na voz serena de um professor,
ou no amigo do irmão a lhe olhar.
Era um amor sem rumo e sem coragem,
desses que nascem só pra florescer
na parte mais secreta da paisagem
onde a infância começa a se perder.
A moça o via entrando pela sala,
com livros, passos lentos, distração,
e o coração, sem nunca compreender,
fazia festa transbordando emoção.
Qualquer palavra simples já bastava
pra incendiar o mundo ao redor,
um gesto breve, um riso, e já sonhava
com luas claras sobre um lindo corredor.
E havia dor nesse querer tão puro,
porque o destino gosta de afastar
aquilo que se guarda, no lugar mais profundo
na ânsia impossível de alcançar.
Talvez jamais soubesse do segredo
que ela escondia atrás da timidez;
mas foi amor — desses eternos medos
que vivem para além da lucidez.
Depois a vida abriu diversas portas,
vieram filhos, outros braços, cais,
o tempo pôs distância sobre tudo,
mudou cidades, nomes e sinais.
Porém existem sentimentos quietos
que a própria vida não desfaz depois,
ficam dormindo em quartos da memória,
como retratos esquecidos por nós.
E um dia, ao ouvir certa canção antiga,
ou perceber perfume igual no ar,
desperta a jovem que existiu um dia
e volta, em silêncio, a se apaixonar.
Porque o primeiro amor nunca termina,
mesmo que o mundo obrigue a renunciar;
ele se eterniza dentro da menina,
que toda mulher leva em seu olhar.
Maria Cezar-POA-RS

Nenhum comentário:
Postar um comentário