A agenda, antes farta de encontros e risos,
Hoje guarda nomes que o tempo silenciou.
Passar dos setenta é caminhar por improvisos,
Num palco onde a plateia, aos poucos, se esvaziou.
É uma dor mansa, que não grita, mas lateja,
Ao ver que a mesa posta tem cadeiras sobrando.
A saudade é um vento que na fresta dardeja,
Lembrando de vozes que o vento foi levando.
Olha-se o espelho e a geografia do rosto
Conta histórias de quem partiu sem avisar.
Há um peso no peito, um certo sol posto,
Uma vontade imensa de o tempo mandar parar.
Mas, no vazio que a ausência desenha,
Surge um brilho novo no que ainda resta,
Pois quem fica é chama, é brasa, é lenha,
Transformando o silêncio em sagrada festa.
Viver em paz tornou-se a urgência do agora,
Sem espaço para o amargo ou o vão rancor.
A vida é o suspiro que não joga fora
O milagre de um dia banhado em vigor.
Valorize o abraço que ainda te alcança,
O amigo que liga, o café que ainda aquece.
Se o tempo correu com sua temperança,
A alma, em sabedoria, finalmente floresce.
Que cada manhã seja um pacto de luz,
Honrando os que foram, amando os que estão.
Pois, se a saudade é a cruz que nos conduz,
O afeto presente é a única salvação.
Maria Cezar-POA-RS

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