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domingo, 23 de agosto de 2026

O que o tempo já levou



​A agenda, antes farta de encontros e risos,

Hoje guarda nomes que o tempo silenciou.

Passar dos setenta é caminhar por improvisos,

Num palco onde a plateia, aos poucos, se esvaziou.


​É uma dor mansa, que não grita, mas lateja,

Ao ver que a mesa posta tem cadeiras sobrando.

A saudade é um vento que na fresta dardeja,

Lembrando de vozes que o vento foi levando.


​Olha-se o espelho e a geografia do rosto

Conta histórias de quem partiu sem avisar.

Há um peso no peito, um certo sol posto,

Uma vontade imensa de o tempo mandar parar.


M​as, no vazio que a ausência desenha,

Surge um brilho novo no que ainda resta,

Pois quem fica é chama, é brasa, é lenha,

Transformando o silêncio em sagrada festa.


​Viver em paz tornou-se a urgência do agora,

Sem espaço para o amargo ou o vão rancor.

A vida é o suspiro que não joga fora

O milagre de um dia banhado em vigor.


​Valorize o abraço que ainda te alcança,

O amigo que liga, o café que ainda aquece.

Se o tempo correu com sua temperança,

A alma, em sabedoria, finalmente floresce.


​Que cada manhã seja um pacto de luz,

Honrando os que foram, amando os que estão.

Pois, se a saudade é a cruz que nos conduz,

O afeto presente é a única salvação.


Maria Cezar-POA-RS 


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