O frio morde leve, um convite ao casaco,
Enquanto os passos desenham o chão.
Não há pressa no rastro, nem peso no vácuo,
Apenas o ritmo do próprio coração.
A noite é um gole de frescor absoluto,
Bebido em silêncio, sem pausa ou temor;
O ar que se inspira, denso e astuto,
Limpa da alma qualquer antigo calor.
Na margem da lagoa, o tempo se aquieta,
A água é um vidro, um sono profundo.
Onde a lua repousa, pálida e reta,
Refletindo o brilho de um outro mundo.
Ali, no balanço da luz sobre a onda,
Renasce o perfume de um tempo distante.
Uma moça que espera, que o sonho sonda,
Com olhos de aurora e peito vibrante.
Ela lembra-se bem daquela menina,
Que via o futuro em tons de cetim.
Onde a vida era mágica, rima divina,
Um jardim de encantos que não teria fim.
O riso solto sem as dobras do agora
A fé no destino como quem toca o ceu
O brilho nos olhos de quem não ignora
Que o mundo se esconde por trás de um véu.
Hoje ela caminha sob o manto gelado,
Sorrindo pro brilho que a água mantém.
O futuro mudou, mas o sonho guardado
Ainda a aquece... e lhe faz tanto bem.
Maria Cezar POA-RS

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