Dois mundos traçados em linhas distintas,
No mapa da vida, fronteira fatal.
Um lado de sedas e cores retintas,
O outro, o suor do chão matinal.
O amor não pediu o brasão ou a conta,
Nasceu no silêncio de um olhar de igual.
Mas a voz do mundo, que o dedo nos aponta,
Sentenciou o afeto como um erro crucial.
Ergueram barreiras de ferro e costume,
Disseram que o ouro não beija o carvão.
E o peito, que outrora era puro perfume,
Tornou-se o deserto da própria negação.
Ficou o vazio, essa fresta no peito,
Um eco de passos que o tempo não traz.
O quarto é silêncio, o mundo é estreito,
E a alma padece de falta de paz.
Se aqui a linhagem dita o destino,
E o nome no papel nos faz separar,
Eu guardo o segredo de um elo divino
Que o peso da terra não pode quebrar.
Pois onde termina o orgulho dos homens,
E a classe se apaga sob a luz do luar,
Não haverá muros que nos desgovernem,
Nem normas severas para nos julgar.
Se não for agora, entre as ruas de pedra,
Será no infinito, onde o espírito é rei.
Onde a flor da alma finalmente medra,
E eu, no teu abraço, enfim pousarei.
Maria Cezar-POA-RS

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